terça-feira, 8 de abril de 2008

Palavrões são advérbios de intesidade.

Foto: Autor desconhecido
Caro leitor, uma coisa que eu ainda não falei sobre mim é que eu tenho "a boca suja".
É claro que eu escovo os dentes infinitas vezes durante o dia! Afinal, além de higiênico e extremamente necessário, torna-se imprescindível quando a sua boca é dominada por arames - eu uso aparelho ortodôntico!
A "sujeira" à qual me refiro são os famosos palavrões! Eu os uso - e muito! - como advérbios de intensidade. Não conheço coisa alguma que expresse com tanta propriedade os sentimentos nada nobres que eventualmente me dominam.
Para provar o meu ponto utilizo-me de um texto atribuído a Millôr Fernades intitulado O Foda-se que publico a seguir.

O Foda-se

O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de foda-se! que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do foda-se!? O foda-se! aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta.
Não quer sair comigo? Então foda-se!. Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!. O direito ao foda-se! deveria estar assegurado na Constituição Federal.
Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.
Pra caralho, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que Pra caralho? Pra caralho tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?
No gênero do Pra caralho, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso Nem fodendo!. O Não, não e não! e tampouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade Não, absolutamente não! o substituem. O Nem fodendo! é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo ‘Marquinhos presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!’. O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicinio.
Por sua vez, o porra nenhuma! atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a gravata daquele chefe idiota senão com um PHD porra nenhuma!, ou ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!. O porra nenhuma!, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos aspone, chepone, repone e mais recentemente, o prepone - presidente de porra nenhuma.
Há outros palavrões igualmente clássicos.
Pense na sonoridade de um Puta-que-pariu!, ou seu correlato Puta-que-o-pariu!, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba... Diante de uma notícia irritante qualquer puta-que-o-pariu! dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.
E o que dizer de nosso famoso vai tomar no cu!? E sua maravilhosa e reforçadora derivação vai tomar no olho do seu cu!. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: Chega! Vai tomar no olho do seu cu!. Pronto! Você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e sai à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: Fodeu!. E sua derivação mais avassaladora ainda: Fodeu de vez!. Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? Fodeu de vez!.
Liberdade, igualdade, fraternidade e foda-se...

Imagino que agora tenha ficado mais clara a minha idéia, né?
Não! Eu não estou dizendo que é bacana. E é menos legal ainda quando eu tenho que me controlar horrores para não mandar uma sonora obscenidade - daquelas ditas por extenso, sabe? - bem na frente do meu enteado a quem exaustivamente falamos para não usar palavreado de baixo calão. Complicado? Deveras! Só que na maior parte do tempo é muito mais forte do que eu.
Estou explicando tudo isso porque o blog ainda está no começo e, fortuitamente, aparecerão algumas explosões de raiva em expressões não muito simpáticas. Daí já estou solicitando as desculpas por antecipação.
Até a próxima!