quarta-feira, 16 de abril de 2008

Que tal um plebiscito?

Foto: Autor desconhecido
Sou totalmente a favor da descriminalização – ou legalização, como queiram – do aborto.
Primeiro porque, a despeito de eu ser católica – ou talvez até por isso – acredito no direito de cada um exercer o livre arbítrio e que somente a Deus cabe julgar o pecado de cada um.
Costumo dizer que a minha doutrina religiosa condena o aborto e que eu, provavelmente, não faria um. Porém sou realista. Eu tenho 28 anos, sou casada, tenho estrutura familiar e situação financeira estável para encarar uma gravidez e um bebê. O que dizer de uma menina de 17 anos, solteira, estudante, pré-vestibulanda, de família simples, com pais autoritários e sem estrutura financeira? Ela tem – teve ou terá – as mesmas oportunidades de escolha que eu? Eu diria que não... E justamente por este motivo não a julgo. Não a condeno. Eu realmente não sei o que é ser ela e estar no lugar dela. By the way, agradeço a Deus por não ser eu a ter que tomar esta decisão.
Segundo porque o Estado é – ou ao menos deveria ser – laico. O Brasil é multi-cultural, multi-étnico e o berço das mais diversas expressões de fé – e mesmo da ausência dela. Por que não respeitar isso?
E terceiro porque é muita hipocrisia dizer que não se faz abortos neste país só porque é ilegal. Quem quer mesmo fazer um aborto encontra um jeito de conseguir. E o faz sem nenhum acompanhamento psicológico ou médico, pelas mãos de um açougueiro qualquer e sujeita a toda sorte de infecções e riscos.
Alguns me condenam, mas tenho algumas “verdades” de caráter estritamente pessoal sobre o assunto.
Diferentemente da maioria, por exemplo, acho que a decisão sobre o assunto cabe única e exclusivamente à gestante. No fim das contas o filho será dela, o ônus será dela e as renúncias serão dela. Sim porque quando os “pais” cismam, vão embora no dia seguinte sem olhar para trás e quem é que fica com o rebento? Naturalmente a moça – ou a mãe da moça – mas certamente eles não levam os bebês junto com eles ao partir. Então eu pergunto: questionar o pai quanto ao aborto para quê, exatamente?
Vejam as mães solteiras. Elas é que não vão para as festas, elas é que levam ao médico, elas é que buscam na escola e são elas que se viram para fazer e acontecer todos os dias. Por que não dar a elas a oportunidade de escolher se é mesmo esta vida que querem para si?
Outra coisa que reforça a minha posição sobre o caso: qual é a participação efetiva do pai durante uma gestação? Resposta: nenhuma! Ele ajuda a fazer e depois só vai se meter de novo – e quando se mete – depois que nasce, certo? Então por que a decisão não caberia a mulher?
Sempre que converso com alguém sobre o assunto digo que até que o projeto de bebê se torne um bebê de fato – ou ao menos até que ele possa (sobre)viver sozinho – ele nada mais é do que um apêndice do corpo da mãe. Curiosamente, no último domingo (13/04/2008) o caderno Mais da Folha de São Paulo trouxe uma matéria sobre o assunto. Trata-se de uma entrevista com o francês Francis Kaplan. Ele é diretor do departamento de filosofia da Universidade de Tours e lançou o livro L´embryon est-il un être vivant? (O Embrião É um Ser Vivo?). Lendo o jornal ontem constatei que tenho razão. Ele explica, dentre outras coisas, de forma bastante científica exatamente o que eu disse logo acima. A-DO-REI! Fiquei louca de vontade de ler o livro.
A favor da minha opinião faço uso de exemplos práticos a fim de provar o meu ponto de vista. Para a pauta em questão utilizo-me de dois exemplos bastante simples:
a. Digamos, por hipótese, que uma mulher com 8 semanas de gestação sofre um infarto agudo do miocárdio e morre. O que acontece com o feto? Obviamente morrerá também posto que ele não tem a mínina possibilidade de sobreviver sozinho.
b. Consideremos, hipoteticamente, uma mulher grávida de 10 semanas. Determinado dia ela sai para trabalhar, é atropelada e morre. A pessoa que lhe tirou a vida responderá por crime de duplo homicídio? Não. Se alguém atropelar e matar uma gestante ele responderá por crime de homicídio culposo – por ter matado a mãe – sem qualquer prejuízo pela morte o nascituro. Estranho ser crime quando a mãe "mata" o feto e não o ser se a morte for provocada por outrem, não?
O fato é que sem o corpo da mãe a tal vida não se mantém.
Os defensores das leis anti-aborto habitualmente fazem uso da Constituição Federal para basear seu argumento: é garantido a todo brasileiro o direito à vida. Pois bem, vou utilizar da mesma Constituição Federal para argumentar: é garantido a todo brasileiro o direito à liberdade. Por que então não garantir para a “futura mamãe” a liberdade de decidir o próprio destino? Dar a ela o amparo psicológico e médico para escolher. Dar a ela a chance de não morrer em uma clínica clandestina.
Respeito aqueles que possuem opiniões contrárias a minha, mas não posso deixar de dizer que os considero demasiadamente hipócritas. E justifico: quantos engravidaram adolescentes? Quantos passam necessidade e não têm o que dar para comer aos filhos? Quantos geraram filhos deficientes sem ter condições de ampará-lo? Talvez alguns, mas certamente não são os 65% da população que se declara contra a legalização - dado apontado na última pesquisa de opinião sobre o assunto. É muito fácil falar quando a pimenta cai nos olhos dos outros. É fácil decidir quando o problema é no vizinho e não na própria casa. É fácil escolher quando a suposição é distante da realidade.
Gostaria de ver nas unas. Gostaria de ver cada brasileiro fazer valer o seu direito de voto. Ainda que o “SIM” perdesse e que a lei se mantivesse tal como está. Porque o que eu queria mesmo era poder ver um debate aberto, em rede nacional de rádio e TV, dando informação porque independentemente do resultado, o que o Brasil precisa é de conscientização. Hoje se fala de forma tendenciosa e distorcida. Extremista para os que são pró e também para os que são contra. Todo extremismo é maléfico. O Osama Bin Laden hoje é um terrorista, mas ele começou lutando por uma causa e a levou ao extremo...
Em tempo: para os católicos fervorosos de plantão vai um trechinho importantíssimo que foi publicado na mesma matéria da Folha que eu já citei: “O fato – geralmente ignorado – é que a Igreja considerou, de modo absolutamente explícito e oficial, até meados do século XIX, que o embrião só se torna um ser vivo, e que o aborto só é, portanto, homicídio, a partir do 40º dia depois da concepção – e, para as meninas, a partir do 80º dia. É o que diz São Tomás de Aquino, o teólogo que mais autoridade possui na Igreja Católica; é o que repetem Sixto V e Gregório XIV; é o que ensina o catecismo romano de Pio IV e Pio V. E se a Igreja mudou depois, não é por razões teológicas, mas – como diz Bento XVI – em função do que ela acredita ser afirmado pela ciência moderna.”

1 opiniões:

Olly disse...

Alguns adendos: o governo não percebe que apenas mulheres de baixa renda sofrem com as consequências de um aborto malfeito. Mulheres ricas não passam por este "desgosto", e não porque não o fazsem, mas porque pagam tem os melhores ginecos fazendo por elas! ( e digo isto porque vc conhece minha família e sabe que stou falando a verdade).
Ponto dois: O Brasil ainda não se sente preparado para admitir tal lei, pois há muitas mulheres que fariam deste um método anticoncepcional... e isto provavelmente onenaria o SUS!
Rá.

beijos